1. Discurso Político e Discurso Literário
O discurso político se tangencia com o discurso literário na medida em que elabora uma outra visão do real imediato aos olhos. Seus veículos de apresentação parecem também coincidir entre si: ambos se utilizam do viés ideológico.
Criações do reino sublunar[1], segundo a noção aristotélica, segundo a qual não existe a exatidão das ciências, mas sim as particularidades que a matéria introduz nos raciocínios. O discurso político, no entanto, não faz apenas construir uma outra realidade. Vai além disso, porque seus objetivos persuasivos são mais fortes e imediatistas do que qualquer discurso literário.
O discurso político não é uma visão da realidade nas suas particularidades. É um ato de persuasão. Pertence à esfera do fazer-crer através de suas interpretações, que nada mais são além de narrativas destinadas a dar um sentido à história (Fernandes, 1999, p.3)
A literatura, por sua vez, oferece-nos um testemunho elaborado, complexo e muito mais significativo do que a noção do real em que vivemos. O discurso político não objetiva clarear idéias ou expressar a realidade, mas o faz sem perceber, em meio às entrelinhas. Cumpre lê-las com atenção.
Propomos estudar o discurso de posse do General João Batista Figueiredo[2] (1979-1984) como uma possível reelaboração do real. À maneira da carta de Pero Vaz de Caminha, que tecia a visão estrangeira sobre a terra a conquistar, também entrevemos os discursos políticos como aportes de entendimento sobre quem somos como Pátria, e quais são nossas relações com o resto do mundo.
Este tipo de discurso, o discurso do nosso próprio reconhecimento, deve ser uma busca de todo cidadão. O que realmente dizem os discursos políticos? Sobre o que calam e por que o fazem? Acreditamos que o sentido dos discursos políticos esteja no seu viés (Orlandi, 1996, p.144), naquela dobra que, quando questionada, nos reponde o que seu orador não quis dizer com aquelas palavras.
2. Fábulas políticas
A exemplo da fábula criada em torno da Nova República, pós-Tancredo Neves, podemos afirmar que
é possível criar uma realidade linguística em que as pessoas se movam como na realidade real, uma vez que a palavra detém o poder; cada tipo de discurso, individual ou coletivo refaz, em certa medida, a cosmogonia, criando um espaço onde os “iniciados” dão como verdadeira uma realidade meramente linguística, com todas as ilações persuasórias que esta operação mental acarreta. (Paula, out. 1987, p.3)
O período dos governos militares no Brasil (1964-1985) apresenta uma trajetória interessante. E, embora não vivêssemos naquela época, valemo-nos de informações colhidas em variados livros como: O outro lado do poder, de Hugo de Abreu; Tudo é política, de Nelson Werneck Sodré, A volta aos quartéis, narrado por personagens do regime militar; Killing Hope, de Wiliiam Blum.
Ora esse período revela toda a dureza de seu lado ditatorial, ora deixa entrever suas grandes contradições. Castello Branco (1964-1967), primeiro presidente militar brasileiro, reduziu os níveis inflacionários e soube renegociar a dívida externa. Buscou com muito afinco escrever uma nova constituição e, através disso, permitir que o próximo governo fosse eleito diretamente. Isso, no entanto, não foi possível.
O segundo presidente, Costa e Silva (1967-1969), ainda que governante militar, tinha por objetivo humanizar a revolução militar de 64, e por isso teve boa aceitação perante a população. Mas suas posições políticas radicais provocaram grande pressão de estudantes e sindicatos.
Em 1970, o general Emílio G. Médici (1970, 1974), a mais autoritária de todas as presidências militares, inicia o seu mandato e, em pouco tempo, consegue um crescimento de 14%, mas sob suas mãos muitos foram torturados e mortos.
Ernesto Geisel (1974-1979) introduz alguns termos que são significativos a fim de entender que havia facções brigando entre si dentro do próprio governo: uma que lutava pelo fim da repressão e outra, pela sua manutenção. Dentre esses termos, a palavra distensão manifesta a intenção de Geisel em promover a abertura do regime.
Em meio ao discurso de Geisel distensão representa a metonímia daquela facção governamental que entendia que era chegada a hora de alargar os laços. Percebe-se, no entanto, através desses discursos, que há dificuldade em aceitar a legitimidade do discurso da oposição (Forget, 1994, p.25). Liberar ou não, essa parecia ser a discussão interna que caracterizava a briga de forças dentro do governo Geisel.
Na presidência de João B. Figueiredo (1979-1984) a abertura começou, vagarosamente, a acontecer. Seu discurso de posse nos mostra que este era um dos objetivos de seu governo. Por outro lado, como um processo que teve seu início no governo Geisel, a abertura não poderia mais ser contida. Basta lembrar que, somente nos dois primeiros meses, o governo Figueiredo enfrentou uma centena de greves, o que pode ser visto como sintomático dentro do processo de abertura.
Essa mudança gradual em relação à lenta aceitação das esquerdas por parte do governo, o que, certamente, é uma mudança política significativa não deixou de ser acompanhada por uma alteração concomitante a ela: a mudança discursiva. Termos como distensão e abertura, surgidos durante o governo Geisel, já serviam de termômetro discursivo a fim de medir as possíveis mudanças no campo político.
Em seu discurso de posse, o Presidente Figueiredo, ao qual nos referiremos como orador, estabelece claramente quais serão as bases de seu governo. Mais que um simples protocolo, o seu discurso expressa, semanticamente, o respeito aos governos anteriores, acolhe relações amigáveis com países capitalistas e reafirma a continuidade das reformas democráticas pacíficas. A prova de sua aceitação está na quantidade de representantes de governos estrangeiros presentes na cerimônia de posse de Figueiredo.
Existe, no entanto, uma articulação ideológica por trás da posição que o orador ocupa. Será a ideologia que norteará as operações de substituição, de paráfrase, de metaforização, constitutivas de uma formação discursiva (Forget, 1994, 189 ss.). Reforçando nossa idéia de que um discurso político necessita ser lido, primeiramente, pelo seu viés, propomos uma busca dos detalhes reveladores de posições ideológicas em meio às operações discursivas. Vejamos, então, um exemplo do uso de operações de metaforização, usada pelo orador, nesse discurso de posse: “Reafirmo o meu gesto: a mão estendida em conciliação”.
Esta metáfora inicia um parágrafo em que o orador irá discursar exatamente sobre a abertura à esquerda brasileira. Ela é, portanto, explanatória sobre como o orador quer que as relações entre as diferentes facções se dêem. E sua atitude parece conciliatória.
Como exemplo de uso de paráfrase, temos a citação que o orador faz a respeito de sua promessa em garantir justas remunerações aos trabalhadores: “Recordando as imortais palavras do Santo Padre Leão XIII : Do trabalho do operário nasce a grandeza das Nações”.
As paráfrases têm o poder de assegurar as opiniões, reforçar os pontos de vista do orador e, neste caso, reafirmar um objetivo retórico um tanto vazio, presente na maioria dos discursos políticos. A citação do Papa Leão XIII visa dar força a um bordão político desgastado pelo tempo: o da justiça social.
Com respeito ao uso de operações de substituição, podemos citar a frequência do uso da palavra Nação. Forget (1994, p.79) defende que, em meio a enunciados conflituosos, o termo Nação serve como distanciador entre o orador e seu público. Acrescentaríamos, a este termo, um outro muito semelhante: a palavra Pátria que, neste texto de Figueiredo, é encontrada quatro vezes, ao lado do termo Nação, encontrada em dez situações.
Nossa idéia é de que a operação de substituição do termo País, pelos termos Nação e Pátria, acompanhados ou não de sua forma plural, se dá quando existe certa arbitrariedade em se tratar da realidade envolvendo o assunto onde essas palavras se inserem.
Nosso levantamento mostra o aparecimento desses termos em quaisquer situações do discurso, mas podemos verificar esse uso arbitrário de que falamos, mais claramente expresso em algumas passagens:
Numa nação jovem como a nossa, é natural uma certa dose de impaciência na promoção dos anseios populares. Ai de nós se nos faltasse o entusiasmo da juventude! Reafirmo meu desejo de encontrar os jovens; com eles confraternizar; e com eles avançar democraticamente na construção da Pátria de nossos filhos e netos.
3. Discurso Racional
O período em que o Brasil foi governado por militares caracterizou-se pelo discurso tecnocrático, um discurso baseado na reverência à racionalidade como solução de todos os problemas brasileiros. A solução do idealismo racionalista consiste em subordinar idealmente o contingente ao necessário (Pecheux, 1990, p.96 ss.)
A imposição desse discurso tecnocrático parece ter conseguido mais do que almejava. Carcaterizado pelo uso de afirmativas através de discurso direto, sem ser percebido, ele tornou-se uma forma de imposição de doutrina, de busca de autolegitimação. Um discurso de repressão. A repressão pela palavra.
E o discurso militar, verdadeiramente, não permite trocas. É um discurso exclusivo, que bane todo e qualquer outro que o conteste. E como o Estado consegue isso? O primeiro dos caminhos talvez seja a fusão das fronteiras entre o querer do Estado e o querer do País. O Estado é colocado, pelos militares, como modalidade acima e fora das classes, um corpo intacto e perfeito. Se o Estado é quem opera, o discurso da Nação deve ser o discurso do Estado, por isso é autoritário. Esse é o chamado mecanismo de universalização abstrata que nega diferenças, para afirmar uma unidade superior, que engloba contrários e contraditórios (Landowski apud Fiorin, Narratividade e Discurso Político)
No entanto, mesmo durante os períodos mais repressivos, a referência a ideais democráticos sempre esteve presente. A lenta aproximação entre as facções, a freqüência do emprego do pronome possessivo nós:
Reafirmo o meu gesto: a mão estendida...tão da índole de nossa gente.
...além do uso de outros recursos lingüísticos, nos mostram os primeiros sinais de cansaço do autoritarismo.
O discurso político comporta dois itens básicos, segundo Fiorin (apud Landowski): um fazer interpretativo que fala da realidade, da política do discurso, e um fazer persuasivo, que trata da maneira de convencer o público e conseguir dele o que almeja.
Landowski interpreta esse fazer-fazer, ou seja, essa busca de poder, como finalidade do discurso político. Cria-se, então, um artifício a fim de consegui-lo: o fazer-crer por meio de narrativas que buscam dar um sentido à história. Aqui se insere a nossa noção anterior sobre o discurso tecnocrático. Parece-nos que esse é um dos mecanismos do fazer-crer. (1992, p.149ss.)
4. A dimensão política do silêncio
Wittgenstein (1961) defende que o silêncio é parte essencial da constituição da linguagem. Sem silêncio não existe sentido. Dizer e silenciar estão juntos na medida em que, ao dizer algo, um sujeito sempre silencia sobre outras significações.
Podemos concluir, então, que existe uma dimensão política do silêncio dentro da formulação dos sentidos. Isso nos remete ao papel da censura que impede que o sujeito ocupe diferentes posições discursivas. Ele só pode produzir os sentidos que não lhe são proibidos, o que afeta imediatamente sua identidade.(Orlandi, 1993, p.82)
A censura é um lugar de negação, ao mesmo tempo que um lugar da força do movimento. Por isso é um lugar privilegiado para se observar a relação do sujeito com as formações discursivas que o cercam. Com que ideologias ele se identifica? Em que região do dizível ele se insere?
Primeiramente, lembramos de Pecheux, a sua tese sobre o sentido de uma palavra, ou expressão. Segundo ele, o sentido de uma palavra ou expressão nunca existe em si mesmo, na transparência de sua literariedade, mas constitui-se segundo as posições ideológicas daqueles que as usam.
Podemos dizer, assim, que uma formação discursiva obedece a alguns fatores ao ser formulada. Ela depende da formação ideológica do momento e do lugar em que acontece, da conjuntura político-social de seu pronunciamento e do estado das lutas de classes em que se insere. Em resumo, a formulação do discurso de um orador depende do que pode e deve ser dito. Isso equivale a dizer que os indivíduos são interpelados pelas formações discursivas que representam, na linguagem, as formações ideológicas que lhe são correspondentes. (Pecheux, 1990 p.167)
Seguindo esse mesmo fio de pensamento, se o sujeito se constitui pelas formações político-social-ideológicas que determinam o que deve dizer e até ser, então, todo sujeito se reconhece a si mesmo em si e nos outros. Descobre-se, assim, que a formação discursiva é, portanto, o lugar, a matriz onde se forja o sentido dominante, intrincado no complexo das formações ideológicas.
Quando um orador toma certas posições discursivas, ele não o faz originariamente, mas está repetindo, reproduzindo o discurso do outro, o discurso primeiro, intrincado de formações ideológicas, no qual ele se insere, e que é anterior a ele.
Essa relação entre orador e a repetição dos discursos que o cercam é palco de apresentação da chamada língua-de-espuma (Orlandi, 1993, p.102), vazia de sentido e essencial na prática do silenciamento. Talvez este seja um ponto de partida para se entender o grande desinteresse da população brasileira pelos pronunciamentos presidenciais.
5. Conclusão
O Brasil parece sofrer eternamente de uma síndrome da influência externa. Portugal foi o primeiro país a dominar nossas terras.
Logo em seguida, ou mesmo, concomitantemente, veio a Espanha, que através do Tratado de Lisboa, de 1681 e do Tratado de Madri, em 1750 teve direito a partes do território sul-americano que, até então, eram de domínio unicamente português (Fernandes, 1997, p.65).
Em 1713 a França, através do Tratado de Utrecht assinado com Portugal, teve o limite da Guiana Francesa estabelecido pelo rio Oiapoque. A Holanda invadiu o Brasil através da Bahia, em 1624, e de Pernambuco, em 1630. A Inglaterra dominou o Brasil através do Pará e Maranhão. A partir da década de 60, até os dias de hoje, sabemos que a influência internacional sobre o Brasil é, marcadamente, americana.
Em Killing Hope, um livro de William Blum, que conta sobre a ação dos famosos Esquadrões da Morte durante o período militar brasileiro, podemos nos informar sobre detalhes desconhecidos dos brasileiros, depoimentos desconcertantes sobre o incômodo americano frente às noções nacionalistas que o Presidente João Goulart expressava.
Entre muitos desagrados, o que parece ter movido os membros da missão diplomática americana a apoiarem o golpe militar, foi a medida que Goulart passou, limitando a quantia de lucros que as multinacionais poderiam enviar para fora do país.
Afora qualquer medida política, o que nos interessa é a composição do discurso em si. E de toda essa história de influências americanas apoiando ações militares no Brasil, o que fica latente em qualquer discurso da época militar é que a idéia de nacionalismo sofreu drástica alteração dentro do regime. Amor à Pátria passou a significar amor ao governo, ao Estado. Defender fronteiras era afastar a possibilidade de influência comunista.
E o discurso de Figueiredo, por ser também marcadamente influenciado pelas mudanças políticas em andamento dentro do país, é um discurso do silêncio. Na era Figueiredo o Brasil presenciou cinco dos vinte e um anos de silêncio por que passamos. Da mesma forma como aconteceu com os outros governos.
O maior indício da chamada língua-de-espuma presente nos discursos militares, está na ojeriza que se criou em torno dos pronunciamentos presidenciais pela televisão. Fingia-se não entender de política, para não sofrer punições. Esta parecia ser a política de relações entre cidadãos e governo.
Dirigentes fingiam proteger. Dirigidos fingiam não entender. Uma perfeita pantomima, cujos textos estão ansiosos pelo seu próprio redescobrimento.
Discurso ao receber a faixa presidencial das mãos do Presidente Ernesto Geisel
(15 de março – Palácio do Planalto – Brasília – DF)
Os passos de Vossa Excelência, eu os acompanhei em toda a minha vida. Para mim, Ernesto Geisel foi exemplo de virtudes militares e cívicas a seguir e emular.
Deus me premiou ao fazer-me receber esta faixa, insígnia da mais alta magistratura de nossa Pátria, das mãos honradas de Vossa Excelência.
O elogio de seu governo, melhor do que eu, toda a Nação o faz. Toda a Nação aí está para dar testemunho da história real dos cinco anos que hoje se encerram. Como seu antigo ministro, tudo o que diga será pouco.
Vi Vossa Excelência sofrer com os que sofrem. Jamais vi tomar para si os momentos de alegria e de realização. Examinar as questões e decidir, no interesse exclusivo do bem da Nação e do Povo.
Vi quando mudou convicções amadurecidas, diante de soluções mais adequadas.
Vi quando – entre tantas propostas conflitantes – ousou escolher a melhor, ainda que a menos popular.
Vi a serena e patriótica lucidez de Vossa Excelência quando – a despeito de duras crises, no âmbito nacional e internacional – soube conduzir o País a um real progresso social e político.
E peço a Deus que, ao sair deste Palácio, da daqui a seis anos, tenha eu percorrido o caminho exemplar de Vossa Excelência: caminho que é a própria História da nossa Pátria.
Excelentíssimo Senhor Vice-Presidente Adalberto Pereira dos Santos:
Dos cargos e funções públicas, poucos serão tão nobilitantes quanto aquele que é o próprio símbolo da continuidade constitucional.
Ser Vice-Presidente da República – como tão bem demonstrou Vossa Excelência – é um constante exercício de humildade, modéstia e confiabilidade. A um passo do Poder, cabe-lhe sobretudo, estar pronto a servir.
Ao deixar a Vice-Presidência, sai Vossa Excelência cercado do respeito dos brasileiros e agasalhado na estima de todos, que tanto o apreciamos.
Excelentíssimo Senhor General Alfredo Stroessner, Presidente da República do Paraguay,
Excelentíssimo Senhor General-de-Divisão David Padilha Arancibia, Presidente da República da Bolívia,
Excelentíssimo Senhor Doutor Carlos Alberto da Mota Pinho, Primeiro-Ministro da República Portuguesa,
Excelentíssimo Senhor Doutor Henck Alphonsus Arron, Ministro-Presidente e Ministro para Assuntos Gerais e Estrangeiros da República do Suriname,
Excelentíssimas Senhoras e Senhores, Chefes e Membros das Missões Especiais que aqui vieram assistir à minha posse:
Honra-me especialmente a presença, nesta cerimônia dos altos Representantes de um número tão expressivo de nações, com as quais mantém o Brasil as melhores relações de amizade e de cooperação.
A inalterável tradição de convivência harmoniosa, que caracteriza a diplomacia brasileira, inspira-me a reafirmar, neste momento, o roteiro proposto pelo Barão do Rio Branco, no começo do século, para a política externa brasileira. “O Brasil do futuro”, disse ele, “há de continuar invariavelmente a confiar, acima de tudo, na força do Direito e no bom senso e, como hoje, pela sua cordura, desinteresse e amor da justiça, procurar merecer a consideração e o afeto de todos os povos”.
Saúdo, com fraterno sentimento, os representantes das Nações de nossa comunidade latino-americana. Ao expressar o apreço pela presença de Vossas Excelências ressalto a convicção de que os laços que nos unem serão ainda mais reforçados e enriquecidos.
Vejo com satisfação a presença dos representantes de nações, como o Brasil, se empenham na luta pela superação do subdesenvolvimento e pela construção de uma sociedade mais justa, nos planos nacional e internacional. Rogo que levem de volta a seus povos, na América Latina, África e Ásia, a expressão da solidariedade, em tão nobre causa, do Governo e do povo brasileiros.
Recebo com especial contentamento a presença de representantes de nações africanas de recente independência. Toca-me profundamente o significado histórico de tal fato. Considero-o marco importante de um relacionamento, cujas perspectivas são tão amplas quanto entrelaçadas nossas raízes étnicas, lingüísticas e culturais.
Aos Senhores representantes de todas as nações irmãs da África, transmito a certeza do continuado apoio do Brasil às aspirações do povo daquele Continente.
Aos países desenvolvidos, da Europa Ocidental, das Américas e do Pacífico, aos quais nos ligam um precioso acervo de laços históricos e tantas identidades culturais, desejo expressar o constante empenho do Brasil numa aproximação crescente, para ainda maior benefício de nossos povos, e engrandecimento dos valores comuns.
Às Nações com sistemas diferente do nosso, reitero a disposição de manter um relacionamento profícuo e dinâmico. Desejamos aproveitar construtivamente todas as oportunidades de cooperação, com resguardo das singulaidades sociais e políticas, na esperança de um caminho de paz.
Senhoras e Senhores: de regresso a seus países, a todos peço transmitir a seus governos a afirmação de que o Brasil será sempre um interlocutor amistoso, um parceiro leal.
A mensagem deste Brasil generoso e hospitaleiro – que peço levar de volta a seus povos – é de otimismo e confiança em nosso futuro comum.
Os meus votos pessoais são de prosperidade e de paz.
Excelentísssimo Senhor Vice-Presidente Antônio Aureliano Chaves de Mendonça.
Excelentíssimo Senhor Senador Luiz Vianna Filho, Presidente do Senado.
Excelentíssimo Senhor Deputado Homero Santos, Presidente em Exercício da Câmara dos Deputados.
Excelentíssimo Senhor Ministro Antônio Neder, Presidente do Supremo Tribunal Federal.
Excelentíssimos Senhores Ministros do Estado do Governo Geisel,
Meus Ministros de Estado,
Minhas Senhoras, meus Senhores:
Para o Vive-Presidente Aureliano Chaves e para mim, as palavras do nosso juramento, perante o Congresso Nacional, não são expressões rituais ou protocolares. São o penhor de dedicarmos ao bem do povo brasileiro todas as nossas forças, todo o nosso caráter. Nele empenhamos honra e vida.
Reafirmo, portanto, os compromissos da Revolução de 1964, de assegurar uma sociedade livre e democrática. Por todas as formas a seu alcance, assim fizeram nas circunstâncias de seu tempo, os presidentes Castello Branco, Costa e Silva, Emílio Medici e Ernesto Geisel.
Reafirmo: é meu propósito inabalável – dentro daqueles princípios – fazer deste país uma democracia. As reformas do eminente Presidente Ernesto Geisel prosseguirão até que possam expressar-se as muitas facetas da opinião pública brasileira, purificado o processo das influências desfigurantes e comprometedoras de sua representatividade.
Reafirmo: sustentarei a independência dos poderes do Estado e sua harmonia, fortalecendo, para que atinja sua plenitude, a Federação sonhada pelos fundadores desta Pátria.
Reafirmo: não descansarei até estar plenamente assegurado – sem sobressaltos – o gozo de todos os direitos do homem e do cidadão, inscritos na Constituição.
Reafirmo o meu gesto: a mão estendida em conciliação. Para que os brasileiros convivam pacificamente. Para que as divergências se discutam e resolvam na harmonia e na boa vontade, tão da índole de nossa gente.
Reafirmo a dedicação total, minha e de meu Governo, ao ideal – plenamente atingível em nossos dias – de propiciar condições dignas de vida a cada cidadão.
Para que melhor se distribuam, entre todos, os frutos do trabalho de todos.
Para que a riqueza nacional não seja meio de ostentação de uns e opróbio de outros.
Para que não sobre a uns poucos o que a muito falta.
Para que as regiões e os estados se diferenciem uns dos outros pela personalidade e pela tradição cultural. Não pelo contraste entre a opulência e a privação injusta e inumana.
Reafirmo a prioridade ao desenvolvimento agropecuário. Como meio de prover rapidamente à elevação dos padrões alimentares do povo. Como forma de melhorar substancialmente a qualidade de vida nos campos.
Reafirmo: o combate à inflação é condição preliminar do desenvolvimento. E será mantido com intensidade proporcional aos malefícios da elevação contínua dos preços.
Reafirmo a decisão de promover o equilíbrio de nossas contas internacionais. Muito do progresso até hoje alcançado só foi possível pelo aporte de recursos de poupança externa. Penso, porém, dada a dimensão a economia brasileira, que devemos financiar, nós mesmos os custos do nosso desenvolvimento.
Reafirmo o propósito de fazer da cidade um chão e teto habitáveis. Não a troca da miséria pela promiscuidade. Não o câmbio de uma forma de pobreza por outra – tão mais cruel, porque mais próximos os bens da civilização.
Reafirmo a minha determinação de garantir a cada trabalhador a remuneração justa em relação ao trabalho produzido, às suas necessidades como chefe de família e a harmonia entre os vários segmentos da sociedade. Recordando as imortais palavras de Santo Padre Leão XIII: “Do trabalho do operário nasce a grandeza das Nações”.
Reafirmo: cada brasileiro tem o direito de receber do Estado os cuidados básicos com sua saúde, com a própria educação e a dos filhos; assistência médico-social na enfermidade, no desemprego e na velhice; habitabilidade nas casas; meios de transporte que não sacrifiquem, nas filas e nas conduções, o tempo destinado ao lazer e convívio.
Brasileiras e Brasileiros:
Vou entregar-me de corpo e alma às tarefas do Governo, para assegurar uma administração eficiente e proba.
Rápida nas decisões.
Simples nas relações com as pessoas e as entidades,
Preocupada com o bem comum.
Vigilante na preservação da ordem pública e dos direitos das pessoas e da sociedade.
Firme na segurança das instituições. Prudente e serena na utilização dos instrumentos legais existentes para esse fim.
Numa nação jovem, como a nossa, é natural uma certa dose de impaciência na promoção dos anseios populares. Ai de nós se nos faltasse o entusiasmo da juventude! Reafirmo meu desejo de encontrar os jovens; com eles confraternizar; e com eles avançar democraticamente na construção da Pátria de nossos filhos e netos.
É o que espero fazer, com a ajuda de Deus e dos brasileiros.
Muito obrigado
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